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1. Vemos aqui um pecador representativo.
Nunca chegaremos ao centro desse incidente até considerarmos a conversão desse homem como um caso representativo, e o próprio ladrão como um caráter representativo. Há aqueles que procuram mostrar que o caráter original do ladrão penitente era mais nobre e digno do que o do outro que não se arrependeu. Mas isso não somente não corresponde à verdade dos fatos nesse caso, como serve para apagar a glória peculiar dessa conversão e remover dele a maravilha da graça divina. É de grande importância reparar que, antes do tempo em que um se arrependeu e creu não havia diferença essencial alguma entre os dois. Na natureza, na história, nas circunstâncias eram um. O Espírito Santo foi cuidadoso em nos contar que ambos insultaram o padecente Salvador:
“E da mesma maneira também os príncipes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos, e fariseus, escarnecendo, diziam: Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e crê-lo-emos. Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus. E o mesmo lhe lançaram também em rosto os salteadores que com ele estavam crucificados” (Mateus 27.41-44).
Realmente terríveis eram a condição e a ação desse assaltante. À beira de adentrar a eternidade ele se une aos inimigos de Cristo no terrível pecado de escarnecer dele. Era de uma torpeza sem paralelo. Pense nisso — um homem na hora em que se aproximava sua morte ridicularizando o Salvador padecente! Ó que demonstração de depravação humana e de inimizade natural da mente carnal contra Deus. E, leitor, por natureza há a mesma depravação herdada dentro de você, e a menos que um milagre da divina graça seja operado dentro de você, existe a mesma inimizade contra Deus e seu Cristo presente em seu coração. Você pode não pensar assim, pode não sentir assim, pode não crer assim. Mas isso não altera o fato. A palavra dele que não pode mentir declara: “Enganoso é o coração, acima de todas as coisas, e desesperadamente perverso” 1 (Jr 17.9). Essa é uma declaração de aplicação universal. Ela descreve o que todo coração humano é por nascimento natural. E outra vez a mesma escritura da verdade declara: “porque a mentalidade da carne significa inimizade com Deus, visto que não está em sujeição à lei de Deus; de fato, nem pode estar” (Romanos 8.7, Tradução do Novo Mundo). Isso, também, diagnostica o estado de todo descendente de Adão. “Porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.22,23). Inefavelmente solene é isso: todavia, necessita que nele se insista. Não é senão quando percebemos nossa desesperadora condição que descobrimos a necessidade de um Salvador divino. Não é senão quando somos levados a perceber nossa total corrupção e fraqueza que nos apressamos ao grande médico. Não é senão quando encontramos nesse ladrão agonizante um retrato de nós mesmos que o acompanharemos dizendo: “Senhor, lembra-te de mim”.
Temos que ser humilhados antes de sermos exaltados. Temos de ser despidos dos trapos imundos de nossa justiça própria antes que estejamos prontos para os trajes de salvação. Temos de vir a Deus como mendigos, de mãos vazias, antes que possamos receber o dom da vida eterna. Temos de tomar o lugar de pecadores perdidos perante ele se quisermos ser salvos. Sim, temos que reconhecer a nós mesmos como ladrões antes que possamos ter um lugar na família de Deus. “Mas”, dirá você, “eu não sou nenhum ladrão! Reconheço que não sou tudo que devo ser. Não sou perfeito. Na verdade, vou ao ponto de admitir a mim mesmo como pecador. Mas não posso consentir que esse ladrão represente meu estado e condição.” Ah, amigo, seu caso é, de longe, pior do que você supõe. Você é um ladrão, e ladrão da pior espécie. Você rouba a Deus! Suponha que uma firma no Leste designasse um agente para representá-la no Oeste, e que mensalmente lhe enviasse seu salário. Mas suponha também que, no fim do ano, os empregadores descobrissem que, ainda que o agente estivesse descontando os cheques a ele remetidos, ele tivesse servido uma outra firma durante o tempo todo. Não seria aquele agente um ladrão?
Todavia, tal é precisamente a situação e o estado de cada
pecador. Ele foi enviado a esse mundo por Deus, que o dotou de talentos e da capacidade de usá-los e valorizá-los. Deus o abençoa com saúde e vigor; supre cada necessidade sua, e fornece inúmeras oportunidades para servi-lo e glorificá-lo. Mas com que resultado? As próprias coisas que Deus lhe dá são mal empregadas. O pecador serve a um outro senhor, precisamente Satanás. Ele dissipa seu vigor e desperdiça seu tempo nos prazeres pecaminosos. Ele rouba a Deus. Leitor não salvo, na perspectiva do Céu, sua condição é desesperadora e seu coração, mau como o daquele ladrão. Veja nele uma figura de si mesmo.
2. Aqui nós vemos que o homem tem que ir ao fim de si próprio antes que possa ser salvo.
Contemplamos acima esse ladrão agonizante como um pecador representativo, um espécime que é amostra do que todos os homens são por natureza e prática — por natureza, em inimizade contra Deus e seu Cristo; por prática, ladrões de Deus, utilizando mal o que ele nos deu e não conseguindo retribuir-lhe o que é devido. Devemos ver agora que esse ladrão crucificado foi também um caso representativo em sua conversão. E nesse ponto deter-nos-emos unicamente em sua situação de desamparo.
Ver a nós mesmos como pecadores perdidos não basta. Aprender que somos corruptos e depravados por natureza e transgressores pecaminosos pelas nossas práticas é a primeira lição importante. A próxima é aprender que estamos totalmente arruinados, e que não podemos fazer nada que seja para ajudar a nós mesmos. Descobrir que nossa condição é tão desesperadora que está inteiramente além da possibilidade de conserto humano, é o segundo passo rumo a salvação — olhando-a pelo lado humano. Porém, se o homem é lento para aprender que é um pecador perdido e inapto para estar na presença de um Deus santo, ele o é ainda mais para reconhecer que nada pode fazer para sua salvação, e que é incapaz de operar qualquer melhoria em si próprio para se adequar para Deus. Todavia, não é senão até que nos demos conta de que estamos “fracos” (Rm 5.6), que somos “impotentes” 2 (Jo 5.3), que não é pelas obras de justiça que façamos, mas pela misericórdia divina que somos salvos (Tt 3.5), que não é senão até que nos desesperemos de nós mesmos, e olhemos para fora de nós mesmos para um que pode nos salvar.
O grande tipo escriturístico do pecado é a lepra, e para a lepra o homem não pode inventar cura alguma. Somente Deus pode lidar com essa pavorosa doença. Assim o é com o pecado. Mas, como dissemos, o homem é lento para aprender essa lição. É como o filho pródigo, o qual, quando dissipara sua fazenda na terra longínqua, vivendo dissolutamente, e começou “a padecer necessidades”, em vez de imediatamente retornar ao seu pai, “foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra”, e foi para os campos a apascentar porcos; em outras palavras, ele foi ao trabalho 3. Igualmente, o pecador que é despertado para a sua necessidade, em vez de ir imediatamente a Cristo, tenta trabalhar por si mesmo para obter o favor divino. Mas ele não conseguirá coisa melhor que o pródigo — as bolotas dos porcos serão sua única porção. Ou então, como a mulher prostrada pela enfermidade por muitos anos. Ela tentou muitos médicos antes de procurar o grande médico: assim o pecador despertado procura alívio e paz primeiro numa coisa e depois em outra, até completar o fatigante ciclo das ações religiosas, e terminar “sem nenhum resultado, mas cada vez piorando mais” (Mc 5.26, Bíblia de Jerusalém). Não, não é senão quando já tinha “gasto tudo o que possuía” que ela procurou Cristo; e não é senão quando o pecador chega ao fim de seus próprios recursos que recorrerá ao Salvador.
Antes que qualquer pecador possa ser salvo, deve ele ir ao lugar da fraqueza reconhecida. Isso é o que a conversão do ladrão agonizante nos mostra. O que ele podia fazer? Não podia caminhar pelas sendas da justiça, pois havia um prego atravessando cada um dos seus pés. Não podia executar nenhuma boa obra, pois havia um prego atravessando cada uma das mãos. Não podia começar vida nova e viver melhor, pois que estava morrendo. E, meu leitor, aquelas suas mãos que tão prontamente agem para justiça própria, e aqueles seus pés que tão rapidamente correm no caminho da obediência legal, devem ser pregados na cruz. O pecador teve de ser interrompido em suas próprias obras e feito desejoso de ser salvo por Cristo. Uma percepção de sua própria condição pecaminosa, de sua condição perdida, de sua condição de desamparo, não é nada mais, nada menos, do que o velho ensino da convicção de pecado, e tal é o único pré-requisito para vir a Cristo para salvação, pois Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores.
3. Aqui vemos o sentido do arrependimento e da fé
O arrependimento pode ser considerado sob vários aspectos. Ele inclui em seu significado e escopo uma mudança da mente acerca de, um desgosto por e um abandono do pecado. Todavia, há mais do que isso. Realmente, o arrependimento é a percepção de nossa condição perdida, é a descoberta de nossa ruína, é o julgamento de nós mesmos, é a confissão de nossa situação perdida. Não é tanto um processo intelectual, mas a consciência ativa na presença de Deus. E isso é exatamente o que achamos aqui no caso do ladrão. Primeiro ele diz ao seu companheiro: “Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?” (Lucas 23.40). Pouco tempo antes sua voz estivera confundida com a daqueles que estavam vilipendiando o Salvador. Mas o Espírito Santo estivera em ação sobre ele e, agora, sua consciência fica ativa na presença de Deus. Não disse ele: “Tu nem ainda temes o castigo”, mas: “Tu nem ainda temes a Deus?” Ele compreende Deus como sendo juiz.
E então, em segundo lugar, ele acrescenta: “E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam” (Lucas 23.41). Aqui vemo-lo reconhecendo sua culpa e a justiça de sua condenação. Ele pronuncia sentença contra si mesmo. Ele não se desculpa e não tenta atenuar nada. Ele reconheceu que era um transgressor, e que, enquanto tal, ele merecia plenamente a punição por seus pecados, sim, que a morte lhe era devida. Você teve essa posição diante de Deus, meu leitor? Confessou abertamente a ele seus pecados? Já sentenciou a si mesmo e a seus caminhos? Está pronto para reconhecer que a morte é o que você merece? Suavize você o seu pecado ou prevarique acerca dele, estará impedindo a sua própria entrada a Cristo. Ele veio ao mundo para salvar pecadores — pecadores confessos, pecadores que realmente tomaram o lugar de pecadores diante de Deus, pecadores que estão cônscios de que estão perdidos e arruinados.
O “arrependimento para com Deus” do ladrão foi acompanhado da “fé em nosso Senhor Jesus”. 4 Ao contemplar sua fé notamos primeiro que ela foi uma fé de cabeça inteligente. Nos parágrafos iniciais do presente capítulo chamamos a atenção para a soberania de Deus e sua graça irresistível e vitoriosa que foram exibidas na conversão desse ladrão. Agora nos voltaremos a um outro lado da verdade, igualmente necessário de nele se insistir, um lado que não é contraditório com o que dissemos anteriormente, mas antes complementar e suplementar. A Escritura não ensina que, se Deus elegeu uma certa alma para ser salva, tal pessoa será salva independente dela vir a crer ou não. Essa é uma conclusão falsa tirada por aqueles que rejeitam a verdade. Não, a escritura ensina que o mesmo Deus que predestinou o fim também predestinou os meios. O Deus que decretou a salvação do ladrão agonizante cumpriu seu decreto dando a ele fé com a qual crer. Isso é o claro ensinamento de 2Tessalonicenses 2.13 (e de outras escrituras): “Deus vos escolheu desde o princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade”.
É justamente isso que vemos aqui em conexão com esse ladrão. Ele teve “fé na verdade”. Sua fé se apossou da palavra de Deus. Sobre a cruz estava a inscrição: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. 5 Pilatos a havia colocado ali por mofa. Porém, ainda assim era a verdade, e após ele tê-la escrito, Deus não permitiria a ele que a alterasse. A tabuleta que portava essa inscrição havia sido carregada na frente de Cristo pelas ruas de Jerusalém e no lugar da crucificação, e o ladrão a lera, e a graça e o poder divinos tinham abertos os olhos de seu entendimento para ver que ela era verdadeira. Sua fé apanhou o sentido do reinado de Cristo, daí mencionar “quando entrares no teu reino”. A fé repousa sempre na palavra escrita de Deus.
Antes que um homem creia que Jesus é o Cristo, deve ter o testemunho diante dele de que ele é o Cristo. A distinção é freqüentemente feita entre a fé da cabeça e a fé do coração, e isso com propriedade, pois a distinção é real, e vital. Algumas vezes a fé da cabeça é desvalorizada, mas isso é tolice. Deve haver essa antes que possa haver aquela. Temos de crer intelectualmente antes que possamos crer salvificamente no Senhor Jesus. Prova disso é vista em conexão com os pagãos: eles não têm fé alguma de cabeça e, por conseguinte, não têm fé nenhuma de coração. Prontamente admitimos que a fé de cabeça não salvará a menos que seja acompanhada pela fé do coração, mas insistimos que não há nada da segunda a menos que antes tenha havido a primeira. Como podem crer naquele a respeito de quem não ouviram? 6 Verdade, pode-se crer acerca dele sem crer nele, mas não se pode crer nele sem primeiro crer acerca dele. Assim o foi com o ladrão agonizante. Com toda probabilidade ele nunca vira Cristo antes do dia da sua morte, mas vira a inscrição testificando o seu reinado e o Espírito Santo usou isso como a base de sua fé. Dizemos então que essa foi uma fé inteligente: primeiro, uma de tipo intelectual, o crer no testemunho escrito apresentado a ele; segundo, uma fé de coração, o descansar confiadamente em Cristo mesmo como o Salvador dos pecadores.
Sim, esse ladrão que agonizava exerceu uma fé de coração que descansou salvificamente em Cristo. Tentaremos ser muito simples aqui. Um homem pode ter fé de cabeça no Senhor Jesus e estar perdido. Um homem pode crer acerca do Cristo histórico e não estar nada melhor por causa disso, tal como não o está por crer acerca do Napoleão histórico. Leitor, você pode crer tudo acerca do Salvador — sua vida perfeita, sua morte sacrifical, sua ressurreição vitoriosa, sua ascensão gloriosa, seu retorno prometido — mas deve fazer mais do que isso. A fé evangélica é uma fé confiante. A fé salvífica é mais que uma opinião correta ou uma linha de raciocínio. A fé salvífica transcende a toda razão. Veja o ladrão agonizante! Era razoável que Cristo o notasse? Um assaltante crucificado, um criminoso confesso, alguém que há poucos minutos atrás o estivera insultando! Era razoável que o Salvador devesse reparar de qualquer forma nele? Era razoável esperar que ele fosse ser transportado da beira do inferno mesmo para o Paraíso? Ah, meu leitor, a cabeça raciocina, mas o coração não. E a petição desse homem veio do coração. Ele não tinha como usar suas mãos e pés (e não eram eles necessários à salvação: antes, a impediam), mas tinha o uso de seu coração e língua. Esses estavam livres para crer e confessar: “Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10.10).
Podemos reparar também que a sua fé era uma fé humilde. Ele orou com conveniente modéstia. Não foi “Senhor, honra-me”, nem “Senhor, exalta-me”, mas Senhor, se tu quiseres, pense em mim! Se tu somente contemplasses a mim — “Senhor, lembra-te de mim”. E, todavia, aquela palavra “lembra-te” era maravilhosamente perfeita e apropriada. Ele poderia ter dito: Perdoa-me, Salva-me, Abençoa-me; mas “lembra-te” incluía todas essas. Um interesse no coração de Cristo incluirá um interesse em todos os seus benefícios! Além disso, tal palavra era bem adequada à condição de quem a expressou. Ele foi um proscrito da sociedade — quem se lembraria dele! O público não pensaria mais nada a respeito dele. Seus amigos ficariam contentes por esquecer dele por haver desgraçado sua família. Mas há um a quem ele ousa confiar essa petição — “Senhor, lembra-te de mim”.
Finalmente, podemos notar que a sua fé era uma fé corajosa. Talvez não pareça à primeira vista, mas uma pequena consideração tornará isso claro. Aquele que estava pendurado na cruz do centro era um de quem todos viravam a cara para não olhar e para quem toda a vil zombaria de uma turba vulgar era direcionada. Toda facção daquele povo se juntou para escarnecer do Salvador. Mateus nos diz que “os que passavam blasfemavam dele” e que “da mesma maneira também os príncipes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos”. Enquanto Lucas nos informa que “também os soldados o escarneciam” (23.36). Portanto, é fácil entender por que os ladrões também se juntaram ao alarido de sarcasmos. Não há dúvidas de que os sacerdotes e escribas sorrissem benignamente sobre eles enquanto assim agiam. Mas, subitamente, houve uma mudança. O ladrão penitente, em vez de continuar a troçar e ridicularizar Cristo, volta-se para o seu companheiro e abertamente o censura, nos ouvidos dos espectadores ajuntados em redor das cruzes, clamando: “este nenhum mal fez”. Desse modo, ele condenou toda a nação judaica! Mais ainda; não somente testemunhou da inocência de Cristo, mas também confessou o reinado dele. E assim, de um só golpe, ele se retira do favor de seu companheiro e da multidão também! Falamos hoje da coragem necessária para abertamente testemunhar de Cristo, mas tal coragem nesses dias se desbota em expressa insignificância perante àquela mostrada naquele dia pelo ladrão agonizante.
4.Vemos aqui um maravilhoso caso de iluminação espiritual.
É perfeitamente maravilhoso o progresso feito por esse homem naquelas poucas horas de agonia. Seu crescimento na graça e no conhecimento de seu Senhor 7 foi espetacular. Do breve registro das palavras que saíram de seus lábios podemos descobrir sete coisas as quais ele havia aprendido sob a instrução do Espírito Santo.
Primeiro, ele expressa sua crença em uma vida futura onde a retribuição seria dada por um Deus justo e que vinga o pecado. Prova-o a frase “Tu nem ainda temes a Deus”. Ele passa uma severa reprimenda em seu companheiro, como quem diz, Como ousa você ter a temeridade de insultar a esse homem inocente? Lembre-se de que brevemente você terá de aparecer diante de Deus e encarar um tribunal infinitamente mais solene do que aquele que o sentenciou para ser crucificado. Deus é para ser temido, portanto, fique quieto.
Segundo, como tenho visto, ele viu sua própria pecaminosidade — “Tu... [não estás] na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam” (Lc 23.40,41). Ele reconheceu que era um transgressor. Ele viu que o pecado merecia punição, que a “condenação” era justa. Ele admitiu que a morte era o que ele merecia. Isso foi algo que seu companheiro não confessou nem reconheceu.
Terceiro, ele testemunhou da impecabilidade de Cristo — “este nenhum mal fez” (Lc 23.41). E aqui podemos observar que Deus se deu ao trabalho de preservar o caráter imaculado de seu Filho. Isso é especialmente visto perto do fim. Judas foi levado a dizer, “[Traí] o sangue inocente”. Pilatos testificou, “nenhum crime acho nele”. 8 A esposa desse disse: “Não entres na questão desse justo”. 9 E agora que ele pendia na cruz, Deus abre os olhos desse assaltante para ver a perfeição de seu Filho amado, e abre seus lábios para que ele testemunhe de sua excelência.
Quarto, ele não apenas testemunhou da humanidade impecável de Cristo, mas também confessou sua Divindade — “Senhor, lembra-te de mim”, disse. Maravilhosa palavra, essa. O Salvador pregado ao madeiro, o objeto da aversão dos judeus e alvo de zombaria do populacho ordinário. Esse ladrão ouvira o insolente desafio dos sacerdotes: “Se és Filho de Deus, desce da cruz”, e resposta alguma fora dada. Mas, movido por fé e não por vista, 10 reconhece e confessa a deidade do sofredor que estava ao centro.
Quinto, ele creu na condição de salvador do Senhor Jesus. Tinha ouvido a oração de Cristo por seus inimigos, “Pai, perdoa-lhes...” e àquele cujo coração o Senhor tinha aberto, essa curta frase tornou-se um sermão de salvação. Seu próprio clamor, “Senhor, lembra-te de mim”, trazia dentro de si seu escopo, “Senhor, salva-me”, o que, por conseguinte, faz supor sua fé no Senhor Jesus como Salvador. Na verdade, ele deve ter crido que Jesus era um Salvador para o principal dos pecadores 11 ou então, como poderia ter crido que Cristo lembrar-se-ia de alguém tal como ele!
Sexto, ele demonstrou sua fé no reinado de Cristo — “quando entrares no teu reino”. Isso também foi uma palavra maravilhosa. As circunstâncias externas todas pareciam desmentir seu reinado. Em vez de estar sentado num trono, ele estava pendurado numa cruz. Em vez de estar usando um diadema real, sua fronte estava rodeada de espinhos. Em vez de estar acompanhado por um séqüito de servos, ele estava contado com os transgressores. Entretanto, ele era rei — Rei dos Judeus (Mt 2.2).
Finalmente, ele ansiou pela segunda vinda de Cristo — “quando entrares”. Ele olhou para longe do presente e para o futuro. Ele viu além dos “sofrimentos”, a “glória”12. Sobre a cruz o olho da fé detectou a coroa. E nisso ele se antecipou aos apóstolos, pois a incredulidade fechara os olhos deles. Sim, ele olhou para além do primeiro advento em vergonha para o segundo, em poder e majestade.
E como podemos explicar a inteligência espiritual desse ladrão agonizante? Onde ele recebeu tal insight das coisas de Cristo? Como foi que esse bebê em Cristo fez tão estupendo progresso na escola de Deus? Somente pode ser explicado pela influência divina. O Espírito Santo foi seu professor! A carne e o sangue não lhe haviam revelado tais coisas mas o Pai no céu. 13 Que ilustração de que as coisas divinas estão escondidas “dos sábios e entendidos” e reveladas aos “pequeninos”! 14
5.Aqui vemos a condição de Cristo como Salvador.
As cruzes estavam separadas por apenas uns poucos decímetros e não demorou a que o Salvador ouvisse o clamor do ladrão penitente. Qual foi sua resposta a isso? Ele poderia ter dito, Você merece esse destino: é um assaltante malvado e é digno de morte. Ou, poderia ter replicado, Você deixou isso tarde mais; você deveria ter me procurado antes. Ah! mas não prometera ele que “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”? 15 Isso ele provou aqui.
Aos vitupérios que foram lançados sobre ele pela multidão, o Senhor Jesus não prestou atenção. Ao desafio insolente dos sacerdotes para que descesse da cruz, ele não deu resposta alguma. Mas à oração desse ladrão contrito e confiante atentou. Nessa hora ele estava em luta contra os poderes das trevas e suportando a terrível carga da culpa de seu povo, e deveríamos ter pensado que ele poderia se escusar a atender a petições individuais. Ah! mas um pecador nunca virá a Cristo em tempo não aceitável. 16 Ele sem demora lhe dá uma resposta de paz.
A salvação do ladrão penitente e crente ilustra não somente a prontidão de Cristo, mas também seu poder para salvar pecadores. O Senhor Jesus não é um Salvador débil. Bendito seja Deus que é capaz de “salvar perfeitamente” 17 aqueles que vem a ele através daquele. E nunca isso foi tão destacadamente mostrado como na cruz. Essa foi a hora da “fraqueza” do Redentor (2Co 13.4). Quando o ladrão clamou, “Senhor, lembra-te de mim”, o Salvador estava em agonia no madeiro maldito. Todavia, mesmo então, mesmo ali, ele teve poder para redimir essa alma da morte e lhe abrir os portais do Paraíso! Nunca duvide, portanto, ou questione a suficiência infinita do Salvador. Se um Salvador agonizante pôde salvar, muito mais depois que ressurgiu em triunfo da sepultura, para nunca mais morrer! Ao salvar esse ladrão, Cristo deu uma mostra de seu poder na hora mesma em que esse estava quase obscurecido.
A salvação do ladrão agonizante demonstra que o Senhor tem o desejo e é apto para salvar todos os que vêm até ele. Se Cristo recebeu esse ladrão penitente e crente, então ninguém precisa se desesperar de não ser bem recebido se tão-somente vier a ele. Se esse assaltante em agonia não estava além do alcance da misericórdia divina, então ninguém que solicite a graça divina ficará sem resposta. O Filho do Homem veio “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10), e ninguém pode estar numa condição pior do que essa. O evangelho de Cristo é o poder de Deus “para todo aquele que crê” (Rm 1.16). Ó, não limite a graça divina! Um Salvador é fornecido até para o “principal” dos pecadores (1Tm 1.15), se tão-somente ele crer. Mesmo aqueles que chegam à hora da morte ainda em seus pecados não ficam sem esperança.
Pessoalmente creio que muito, muito poucos sejam salvos num leito de morte, e são as raias da loucura qualquer homem postergar sua salvação até lá, pois não há garantia nenhuma de que terá ele um leito de morte. Muitos são cortados subitamente, sem qualquer oportunidade de deitar e morrer. Todavia, mesmo alguém naquele lugar não está além do alcance da misericórdia divina. Como disse um puritano, “há um caso tal registrado para que ninguém precise se desesperar, mas apenas um, na escritura, para que ninguém possa abusar”.
Sim, aqui vemos a condição de Cristo como Salvador. Ele veio a este mundo para salvar pecadores, e o deixou e foi ao Paraíso acompanhado por um criminoso salvo — o primeiro troféu de seu sangue redentor!
6. Aqui vemos o destino dos salvos na morte.
Em seu esplêndido livro, The Seven Sayings of Christ on the Cross, Dr. Anderson-Berry assinala que a palavra “Hoje” não está corretamente colocada na tradução de nossas versões tradicionais, e que a designada correspondência entre o pedido do ladrão e a resposta de Cristo requer uma construção diferente no último. A forma da réplica de Cristo tem o evidente desígnio de fazer a correspondência em sua ordem de pensamento à petição do assaltante. Tal será visto se dispormos as duas em quadros paralelos, como segue:
E disse a Jesus
E disse-lhe Jesus
Senhor
Em verdade te digo
Lembra-te de mim
Estarás comigo
Quando entrares
Hoje
No teu reino
No Paraíso.
Ao ordenarmos assim as palavras, descobrimos a ênfase correta. “Hoje” é a palavra enfática. Na graciosa resposta de nosso Senhor ao pedido do ladrão temos uma ilustração contundente de como a graça divina excede as expectativas humanas. O ladrão rogou para que o Senhor se lembrasse dele em seu reino vindouro, mas Cristo lhe assegura que antes que aquele dia mesmo tivesse passado ele estaria com o Salvador. O ladrão pede para ser lembrado em um reino terreno, mas Cristo assegura a ele um lugar no Paraíso. O ladrão simplesmente pede para ser lembrado, mas o Salvador declarou que deveria estar com ele. Assim Deus faz abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos. 18
Não somente a resposta de Cristo significa a sobrevivência da alma após a morte do corpo, mas nos diz que o crente está com ele durante o intervalo que faz a divisão entre a morte e a ressurreição. Para tornar isso mais enfático, Cristo precedeu sua promessa com as solenes mas seguras palavras “Em verdade te digo”. Foi essa perspectiva de ir para Cristo depois da morte que animou o mártir Estevão em sua última hora e, em conseqüência, ele de fato bradou, “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.59). Foi essa bendita expectativa que levou o apóstolo Paulo a dizer, tenho o “desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Fp 1.23). Não em um estado de ausência de consciência no túmulo, mas com Cristo no Paraíso é o que aguarda todo crente após a morte. Digo, todo “crente”, pois as almas dos incrédulos, ao invés de irem para lá, vão para o lugar de tormentos, como está claro no ensino de nosso Senhor em Lucas 16. Leitor, para onde irá a sua alma, se estiver morrendo nesse momento?
Quão arduamente Satanás luta para ocultar essa abençoada esperança dos santos de Deus! Por um lado ele propaga o infeliz dogma do sono da alma, o ensino de que os crentes ficam em um estado de inconsciência entre a morte e a ressurreição; e, por outro, ele inventa um horrível purgatório, para aterrorizá-los com o pensamento de que, ao morrerem, passam pelo fogo, necessário para purificá-los e adequá-los para o céu. Quão inteiramente a palavra de Cristo ao ladrão liquida essas ilusões que desonram a Deus! O ladrão foi da cruz direto para o Paraíso! O momento em que um pecador crê, é o momento em que ele é tornado idôneo “para participar da herança dos santos na luz” (Cl 1.12). “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10.14). Nossa aptidão para a presença de Cristo, tanto quanto nosso título, repousa unicamente em seu sangue derramado.
7. Aqui vemos o anelo do Salvador por comunhão.
Na comunhão alcançamos o clímax da graça e a essência do privilégio cristão. Mais alto que essa comunhão não podemos chegar. Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho” (1Co 1.9). Freqüentemente se nos diz que somos “salvos para servir”, e isso é verdade, mas é somente parte dessa, e de modo nenhum a mais maravilhosa e abençoada. Somos salvos para a comunhão. Deus tinha inumeráveis “servos” antes que Cristo viesse aqui para morrer — os anjos sempre cumpriram suas ordens. Ele veio primeiramente, não para se assegurar de servos, mas daqueles que deveriam entrar em comunhão com ele.
O que torna o céu superlativamente atraente ao coração do santo não é o fato de ser um lugar onde seremos libertos de toda tristeza e sofrimento, de ser onde encontraremos outra vez aqueles que amamos no Senhor, nem por suas ruas de ouro, portas de pérolas e muros de jaspe — não, benditas coisas são essas, mas o céu sem Cristo não seria céu. É Cristo que o coração do crente anseia e almeja — “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti” (Sl 73.25). E a mais surpreendente coisa é que o céu não será céu para Cristo no sentido mais elevado até que seus remidos estejam reunidos em torno dele. É por seus santos que seu coração deseja ardentemente. Vir outra vez e “receber-nos para si mesmo” é a jubilosa expectativa posta perante ele. Não até que veja o trabalho de sua alma e fique totalmente satisfeito. 19
Esses são os pensamentos sugeridos e confirmados pelas palavras do Senhor Jesus ao ladrão agonizante. “Senhor, lembra-te de mim” fora seu clamor. E qual foi a resposta? Repare cuidadosamente nela. Houvesse Cristo simplesmente dito, “Em verdade te digo que hoje estarás no Paraíso”, isso teria cessado os temores do ladrão. Sim, mas isso não satisfez ao Salvador. Aquilo sobre o qual seu coração estava firmado era o fato de que naquele mesmo dia uma alma salva por seu precioso sangue deveria estar com ele no Paraíso! Dizemos outra vez, esse é o clímax da graça e a essência da bênção cristã. Disse o apóstolo que tinha o “desejo de partir, e estar com Cristo” (Fp 1.23). E novamente ele escreveu: “Ausentes deste corpo” — livres de toda dor e cuidado? Não. “Ausentes do corpo” — trasladados à glória? Não. “Ausentes deste corpo... presentes com o Senhor” (2Co 5.8, ARA). Assim também com Cristo. Disse ele: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar”; todavia, ao acrescentar “virei outra vez”, não diz “E conduzir-vos-ei à casa do Pai”, ou “levar-vos-ei ao lugar que tenho preparado a vós”, mas “virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo” (Jo 14.2,3). Estar “para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17) é a meta de todas as nossas esperanças; ter-nos para sempre consigo é o que ele anseia com ardente e alegre expectativa. Estarás comigo no Paraíso!