OS SETE BRADOS DO SALVADOR NA CRUZ / parte 7 Mai 29, 2010
Seção: ARTHUR W. PINK (1886 - 1952)

Arthur W. Pink
(1886 – 1952)

Um conhecimento profundo sobre as últimas horas do Senhor Jesus na Cruz do Calvário.

Uma leitura imprescindível!

Dicionário Bíblico
  • Aldeia: Pequena povoação que não tem categoria de vila ou cidade.
  • Anjo: gr. Mensageiro. Personagem sobrenatural e celestial enviado por Deus como mensageiro aos homens, para executar Sua vontade. "São todos êles espíritos ministradores enviados para serviço, a favor dos que hão de herdar a salvação, Hb.1:14; Dn.7:10; S
  • Apocalipse: Último livro no Novo testamento. Enquanto Gênesis é o livro das origens, Apocalipse é o livro das consumações.
  • Arca: 1- ARCA DE NOÉ: Embarcação construída por Noé, ordenado por Deus. Noé, sua família, e um casal de cada espécie dos animais, répteis e aves, se mantiveram em segurança dentro da arca, durante os 150 dias em que as águas predominaram
  • Augusto: César Augusto, Lc.2:1·
  • Cristo: gr. Ungido, heb. Messias. Leia: Mt.16:16e20; Lc.3:15; 1Jo.5:1; Veja também: Jesus, Messias.
  • Cruz: Instrumento de suplício, usado pelos assírios, persas, egípcios, gregos e romanos. Era formada geralmente por duas peças de madeira. atravessadas uma sobre a outra, e a qual se prendiam ou se pregavam os criminosos. leia: Mc.15:26; Is.53:4;
  • Davi: heb. Amado. O segundo e o mais ilustre dos reis de Israel, conhecido como o homem segundo o coração de Deus, At.13:22; O caçula, dos oito filhos de Jessê, o belemita, 1Sm.16:1; Não se menciona o nome de sua mãe. Sua genealogia, Rt.4:18-22; 1Cr.2
  • Deus: 1) Ser existente por sí mesmo, infinito, supremo, criador e conservador do universo. ATRIBUTOS DE DEUS: Eterno, Gn.21:33; Êx.3:15; Dt.32:40; Sl.90:2; etc Fogo consumidor, Hb.12:29;
  • Diabo: gr. Caluniador. Espírito supremo do mal, chamado também de... Abadom e Apoliom, Ap.9:11; Belzebu, Mt.12:24; Belial, 2Co.6:15;
  • Dom: presente, dádiva, donativo; Dons espirituais são privilégios adquiridos de modo sobrenatural.
  • Egito: A terra do Nilo, Pais a sudoeste da Palestina e da Síria. Atingiu, no tempo dos faraós um alto grau de perfeição nas artes, nas ciências e nas letras. Os filhos de Israel foram escravisados no Egito por 430 anos, Êx.1:11; - As pragas do Egito,
  • Elias: heb. Cujo Deus é Jeová. 1) Profeta, tesbita, morador de Gileade, 1Rs.17:1; Predisse ao rei Acabe uma grande seca, 1Rs.17:1; Escondeu-se Junto à torrente de Querite e foi milagrosamente sustentado por corvos, 1Rs.17:5-6; Ressuscitou o filho duma vi
  • Herodes: 1)Herodes Magno ou Herodes O Grande, Rei da judéia de 39 a 4 A.C. 2)Herodes Harquelau, Filho de Herodes Magno, Mt.2:22; 3)Herodes Antipas, filho de Herodes o grande, tetrarca da Galiléia, Mt.14:1; Lc.3:1; Degolou João Batista, Mt.14:10;
  • Igreja: A comunidade, nas escrituras, que reconhece o Senhor Jesus Cristo como Supremo Legislador. Conjunto dos fiéis ligados pela mesma fé, e sujeitos aos mesmos chefes espirituais.
  • Ira: heb. Vigilante.
  • Isaque: heb. Riso. Patriarca, filho de Abraão e de Sara. Filho de promessa, Gn.18:1-15; Seu nascimento, Gn.21.1-7; Nasceu quando Abraão tinha 100 anos e Sara 90, Gn.17:17; Gn.21:5; Tanto Abraão como Sara riram-se, quando lhes foi anunciado o seu nascimento.
  • Israel: heb. Que luta com Deus. 1 - O nome dado a Jacó, depois de ter lutado com Deus, Gn.32:28; Gn.35:10; Os.12:3; 2 - Todos os descendentes de Jacó, Gn.34:7; Dt.4:1;
  • Jeremias: heb. Jeová estabelece 1) Filho do sacerdote Hilquias, um dos quatro grandes profetas, escreveu o livro que tem seu nome, Jr.1:1-19, Jr.2:1; 2)Outros de mesmo nome.
  • Jesus: Forma grega do nome hebraico Josué. significa: Salvador. gr. Salvador, hb. Josué: 1) Jesus, um companheiro de Paulo apelidado Justo, Cl.4:11. 2) Jesus Cristo. E tanto o centro da história do mundo como da história e da doutrina da Bíblia.
  • Luz: hebraico: amendoeira - Gênesis 28.19; 35.6; 48.3; Juízes 1.23
  • Mateus: heb. Dom de Deus - Lucas 2.35; Mateus 9.9
  • Messias: heb. Ungido - João 1.41
  • Messias: grego. Christos - João 5.25
  • Nicodemos: heb. Vitorioso sobre o povo - João 3.1
  • Pedro: grego. Pedra ou rocha - João 21.15, aramaico: Cefas - Mateus 10.2
  • Quis: hebraico: poder - 1 Samuel 9.1; 1 Crônicas 8.30; 23.21; 2 Crônicas 29.12; Et 2.5
  • Remir: adquirir de novo - Êxodo 34.20; Tito 2.14
  • Sacerdote: latim: sacerdos, sacerdotem - Gênesis 14.18
  • Salmo: grego: salmos - Salmos 95.2; 105.2; Efésios 5.19; Colossenses 3.16
Dica: Se preferir, faça o download da sétima parte clicando aqui

5. A PALAVRA DE SOFRIMENTO

“Sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede”

João 19.28

“TENHO SEDE”. Tais palavras foram faladas pelo Salvador padecente um pouco antes de ele curvar sua cabeça e render o espírito. Somente são registradas pelo evangelista João e, como podemos ver, é conveniente que elas devam ter lugar em seu evangelho, pois não apenas demonstram sua humanidade, mas também salientam sua glória divina.

“Tenho sede”. Que texto para um sermão! Um sermão curto e verdadeiro, e contudo quão abrangente, quão expressivo, e quão trágico! O Criador dos céus e da terra com os lábios ressecados! O Senhor da glória precisando de um gole de água! O Amado do Pai clamando, “Tenho sede!” Que cena! Que palavra, essa! Claramente, nenhuma pena não inspirada traçou um quadro desses.

Outrora o Espírito de Deus moveu Davi a dizer a respeito do Messias vindouro: “Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre” (Sl 69.21). Quão maravilhosamente completa foi a previsão da profecia! Nenhum item essencial lhe estava faltando. Todo detalhe importante da grande tragédia fora escrito de antemão. A traição por um amigo íntimo (Sl 41.9), a deserção dos discípulos por ficarem escandalizados com ele (Sl 31.11), a acusação falsa (Sl 35.11), o silêncio perante seus juízes (Is 53.7), sua ausência de culpa provada (Is 53.9), o ser contado entre os transgressores (Is 53.12), o ser crucificado (Sl 22.16), a zombaria dos espectadores (Sl 109.25), o escárnio pelo não-livramento (Sl 22.7, 8), o sorteio de suas vestes (Sl 22.18), a oração por seus inimigos (Is 53.12), o ser desamparado por Deus (Sl 22.1), a sede (Sl 69.21), o render de seu espírito nas mãos do Pai (Sl 31.5), os ossos não quebrados (Sl 34.20), o sepultamento na tumba de um rico (Is 53.9); tudo claramente predito séculos antes de se suceder. Que evidência convincente da inspiração divina das escrituras! Quão firme fundamento vós, santos do Senhor, está posto para sua fé, na sua palavra excelente!

“Tenho sede”. O fato que está aqui registrado como uma das sete elocuções de nosso Senhor na cruz sugere que seja uma palavra de precioso significado, uma palavra para ser entesourada em nossos corações, uma palavra merecedora de prolongada meditação. Temos visto que cada um dos ditos anteriores do Salvador padecente tem muito a nos ensinar e, certamente, esse não pode ser uma exceção. O que então podemos deduzir dele? Quais são as lições que essa quinta palavra da série nos ensina? Possa o Espírito da verdade iluminar nosso entendimento à medida que nos esforçamos para fixar nela nossa atenção.





“Tenho sede”

1. Temos aqui uma prova da humanidade de Cristo.

O Senhor Jesus era Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, mas também foi homem verdadeiro vindo de homem verdadeiro. Isso é algo para ser crido e não para que a orgulhosa razão sobre ele especule. A pessoa de nosso adorável Salvador não é um objeto adequado para a diagnose intelectual; antes, devemos nos curvar diante dele em adoração. Ele mesmo nos avisou: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai” (Mt 11.27). E outra vez o Espírito de Deus, através do apóstolo Paulo, declara: “E evidentemente é grande o mistério da piedade com que Deus se manifestou em carne” (1Tm 3.16, Vulgata1). Enquanto pois há muita coisa acerca da pessoa de Cristo que nos é insondável ao próprio entendimento, todavia, tudo que há sobre ele é para se admirar e prestar adoração: em primeiro lugar, sua deidade e humanidade, e a perfeita união dessas duas em uma única pessoa. O Senhor Jesus não foi um homem divino, nem um Deus humanizado; foi o Deus-homem. Para sempre Deus, e agora para sempre homem.

Quando o Amado do Pai encarnou-se, não cessou de ser Deus, nem pôs de lado nenhum de seus atributos divinos, ainda que tenha se despojado da glória que tinha com o Pai antes de haver o mundo. Mas na encarnação, o Verbo se fez carne e tabernaculou 2 entre os homens. Ele não deixou de ser tudo o que era anteriormente, mas tomou para si o que não tinha antes — humanidade perfeita.

A deidade e a humanidade do Salvador foram, cada uma delas, contempladas na predição messiânica. A profecia representava aquele que havia de vir, ora como divino, ora como humano. Ele era o “Renovo do Senhor” (Is 4.2). Ele era o Maravilhoso, o Conselheiro, o Deus forte, o Pai dos séculos (Hebreus3), o “Príncipe da paz” (Is 9.6). Aquele que haveria de sair de Belém e ser rei em Israel, era aquele cujas saídas são desde os dias da eternidade (Mq 5.2). Ele era ninguém menos do que o próprio Jeová que apareceria de repente no templo (Ml 3.1). Todavia, por outro lado, ele era a “semente” da mulher (Gn 3.15); um profeta como Moisés (Dt 18.18); um descendente da linhagem de Davi (2Sm 7.12,13). Ele era o “servo” de Jeová (Is 42.1). Ele era o “homem de dores” (Is 53.3). E é no Novo Testamento que nós vemos esses dois diferentes grupos de profecias harmonizados.

Aquele nascido em Belém era o Verbo divino. A Encarnação não significa que Deus se manifestou como um homem. O Verbo se fez carne; tornou-se o que não era antes, ainda que nunca cessasse de ser tudo o que fora anteriormente. Aquele que era em forma de Deus e que não teve por usurpação ser igual a Deus “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7). O bebê de Belém era Emanuel — Deus conosco —, era mais do que uma manifestação de Deus, ele era Deus manifestado em carne. Era tanto Filho de Deus como Filho do Homem. Não duas personalidades separadas, mas uma pessoa possuindo as duas naturezas — a divina e a humana.

Enquanto aqui na terra, o Senhor Jesus deu provas completas de sua divindade. Ele falava com sabedoria divina, ele agia em santidade divina, ele exibia poder divino, e ele mostrava amor divino. Ele lia as mentes dos homens, movia seus corações e compelia-os em suas vontades. Quando a ele agradava exercer seu poder, toda a natureza ficava sujeita ao seu mando. Uma palavra dele e a enfermidade saía, uma tempestade era acalmada, o demônio partia, o morto retornava à vida. Tão verdadeiramente era ele Deus manifesto em carne, que podia dizer: “Quem vê a mim vê o Pai”. 4

Assim, também, quando tabernaculava entre os homens, o Senhor Jesus dava total prova de sua humanidade — humanidade sem pecado. Ele adentrou a esse mundo como bebê e estava envolto em panos (Lc 2.7). Quando criança, é-nos dito, ele “crescia... em sabedoria, e em estatura” (Lc 2.52). Quando menino, encontramo-lo “interrogando” os doutores (Lc 2.46). Quando homem, seu corpo esteve “cansado” (Jo 4.6). Ele “teve fome” (Mt 4.2). Ele dormiu (Mc 4.38). Ele ficou “admirado” (Mc 6.6). Ele “chorou” (Jo 11.35). Ele “orava” (Mc 1.35). Ele “se alegrou” (Lc 10.21). Ele “gemeu internamente” (Jo 11.33, Vulgata5). E aqui em nosso texto ele clamou: “Tenho sede”. Isso demonstrava sua humanidade. Deus não tem sede. Os anjos também não. Não a teremos na glória: “Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede” (Ap 7.16). Mas temos sede agora, porque somos humanos e estamos vivendo num mundo de dor. E Cristo ficou sedento porque era homem: “Pelo que convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos” (Hb 2.17).

“Tenho sede”

2. Vemos aqui a intensidade dos sofrimentos de Cristo.

Vamos primeiro considerar esse brado do Salvador como uma expressão de seu sofrimento corporal. Para perceber algo do que há por trás de tais palavras devemos relembrar e rever o que as precede. Após instituir a Ceia no cenáculo, seguida pelo longo discurso pascal a seus apóstolos, o Redentor transferiu-se para o Getsêmane e ali, por uma hora, passou pela mais excruciante agonia. Sua alma estava extremamente triste. Enquanto ele contemplava o terrível cálice dele escorria, não suor, mas grandes gotas de sangue.

Sua luta no Jardim foi finda com o aparecimento do traidor acompanhado pelo bando que viera prendê-lo. Ele foi trazido perante Caifás e, ainda que fosse metade da noite, foi examinado e condenado. O Salvador foi retido até de manhã cedo, e após as fatigantes horas de espera haverem terminado, foi levado para diante de Pilatos. Seguindo um longo julgamento, ordens foram dadas para que se o açoitassem. Em seguida, foi conduzido, talvez atravessando direto pela cidade, à corte de julgamento de Herodes e, depois de uma breve aparição perante esse prelado romano, foi entregue às mãos dos brutais soldados. Novamente foi ele escarnecido e chicoteado, e outra vez foi levado através da cidade, de volta a Pilatos. Mais uma vez houve a enfadonha demora, as formalidades de um julgamento, se é que uma tal farsa seja merecedora desse nome, seguida pela sentença de morte dada.

Então, com as costas sangrando, carregando sua cruz sob o calor do sol do já quase meio-dia, ele caminhou até às escarpadas alturas do Gólgota. Atingindo o lugar designado da execução, suas mãos e pés foram pregados ao madeiro. Por três horas ele ficou ali pendurado com os inclementes raios solares incidindo sobre sua cabeça coroada de espinhos. Isso foi seguido pelas três horas de trevas que agora o cobria.

Aquela noite e aquele dia foram horas nas quais uma eternidade foi condensada. Todavia, durante toda ela, nem uma só palavra de murmuração passou em seus lábios. Não havia queixa alguma, nenhum rogo por misericórdia. Todos os seus sofrimentos foram suportados em augusto silêncio. Como uma ovelha muda perante seus tosquiadores, ele não abriu a sua boca. 6 Mas agora, no fim, seu corpo arruinado, dorido, sua boca ressecada, ele clama, “Tenho sede”. Não foi um apelo por compaixão, nem um pedido pela mitigação de seus sofrimentos; ele expressou a intensidade das agonias por que estava passando.

“Tenho sede”. Isso era mais do que a sede comum. Era algo mais profundo do que os sofrimentos físicos por detrás dela. Uma comparação cuidadosa de nosso texto com o de Mateus 27.48 mostra tais palavras “Tenho sede” seguidas imediatamente após a quarta elocução de nosso Salvador na cruz — “Eli, Eli, lama sabactâni” — pois enquanto o soldado estava pressionando a esponja embebida em vinagre nos lábios do padecente, alguns dos espectadores gritaram: “Deixa, vejamos se Elias vem livrá-lo”. Todos sabemos que as provações internas da alma reagem no corpo, destruindo os nervos e afetando o vigor — “O espírito abatido virá a secar os ossos” (Pv 17.22); “Enquanto eu me calei, envelheceram os meus ossos pelo meu bramido em todo o dia. Porque de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; o meu humor se tornou em sequidão de estio” (Sl 32.3,4). O corpo e a alma são solidários um com o outro. Lembremo-nos de que o Salvador havia acabado de emergir das três horas de trevas, durante as quais a face de Deus havia se retirado dele enquanto sofria a fúria de sua ira derramada. Esse grito de sofrimento do corpo diz-nos, então, da severidade do conflito espiritual que ele tinha acabado de passar! Falando com antecedência pela boca de Jeremias dessa hora mesma, ele disse: “Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho? atendei, e vede, se há dor como a minha dor, que veio sobre mim, com que me entristeceu o Senhor, no dia do furor da sua ira. Desde o alto enviou fogo a meus ossos, o qual se assenhoreou deles; estendeu uma rede aos meus pés, fez-me voltar para trás, fez-me assolada e enferma todo o dia” (Lm 1.12,13). Sua “sede” foi o efeito da agonia de sua alma no feroz calor da ira divina. Falava da seca da terra onde o Deus vivo não está. Mais ainda: claramente expressava seu anelo por comunhão novamente com ele, de quem ficara separado por três horas. Não foi o próprio Cristo quem disse, pelo espírito de profecia, e o faz agora, assim que emergiu das trevas: “Como o cervo brama pelas correntes de águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?” Não identificam as palavras seguintes quem fala e não revelam elas o tempo em que aquele anelo e “suspiro” foram expressos? “As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite, porquanto me dizem constantemente: Onde está o teu Deus?” (Sl 42.1-3).






“Tenho sede”

3. Aqui vemos a profunda reverência de nosso Senhor pelas escrituras.

Quão constantemente a mente do Salvador se voltava aos oráculos sagrados! Ele de fato vivia de toda a palavra que sai da boca de Deus. 7 Era o “Bem-aventurado Homem” que meditava na lei de Deus “de dia e de noite” (Sl 1). A palavra escrita era o que formava seus pensamentos, preenchia o seu coração, e regulava os seus caminhos. As escrituras são a vontade do Pai transcrita, e essa foi sempre o seu deleite. Na tentação, aqueles escritos foram sua defesa. Em seu ensino os estatutos do Senhor foram sua autoridade. Em suas controvérsias com os escribas e fariseus, sempre apelou à lei e ao testemunho. 8 E agora, na hora da morte, sua mente permanecia na palavra da verdade.

A fim de alcançar a força principal dessa quinta elocução do Salvador na cruz, devemos reparar em seu contexto: “Sabendo Jesus que já todas as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede” (Jo 19.28). A referência é ao Salmo 69 — mais um dos salmos messiânicos que descrevem tão vividamente sua paixão. No espírito de profecia, havia declarado: “Deram-me fel por mantimento, e na minha sede me deram a beber vinagre” (v. 21). Isso ainda estava sem ser concluído. As predições dos versículos precedentes já tinham recebido seu cumprimento. Ele já havia atolado no “profundo lamaçal” (v. 2); ele havia sido aborrecido “sem causa” (v. 4); ele havia “suportado afrontas” e confusão (v. 7); ele havia se “tornado como um estranho” para os seus irmãos (v. 8); ele havia se tornado “um provérbio” para os seus injuriadores, e “a canção dos bebedores de bebida forte” (vv. 11,12); ele havia “clamado a Deus” em sua angústia (vv. 17-20) — e agora nada mais faltava senão oferecer a ele a bebida de vinagre e fel, e a fim de cumprir isso foi que ele bradou: “Tenho sede”.

“Sabendo Jesus que já TODAS as coisas estavam terminadas, para que a Escritura se cumprisse, disse: Tenho sede”. Quão completamente calmo estava o Salvador! Ele estava pendurado naquela cruz por seis horas e havia passado por sofrimento sem paralelo, e contudo sua mente está clara e sua memória intacta. Tinha diante de si, com perfeita distinção, toda a palavra divina. Ele revisava o escopo todo da predição messiânica. Ele lembra-se de que há uma profecia escriturística que não foi levada a cabo. Ele não passou por cima de nada. Que prova essa de que ele era divinamente superior a todas as circunstâncias!

Antes de prosseguirmos devemos brevemente indicar uma aplicação para nós mesmos. Temos observado como o Salvador se curvou à autoridade da escritura tanto na vida quanto na morte; leitor cristão, como isso se dá contigo? O livro divino é a corte final de apelação a você? Você descobre nela uma revelação da mente e da vontade de Deus concernente a você? Ela é uma lâmpada para os seus pés? 9 Ou seja, você está andando em sua luz? 10 Os seus mandamentos são obrigatórios para você?

Você está realmente obedecendo-a? Você pode dizer com Davi, “Escolhi o caminho da verdade; propus-me seguir os teus juízos. Apego-me aos teus testemunhos... Considerei os meus caminhos, e voltei os meus pés para os teus testemunhos. Apressei-me, e não me detive, a observar os teus mandamentos” (Sl 119.30,31,59,60)? Você, como o Salvador, está ansioso por cumprir as escrituras? Ó, possam o escritor e o leitor buscar graça para orar de coração: “Faze-me andar na vereda dos teus mandamentos, porque nela tenho prazer. Inclina o meu coração a teus testemunhos... Ordena os meus passos na tua palavra, e não se apodere de mim iniqüidade alguma” (Sl 119.35,36,133).

“Tenho sede”

4. Vemos aqui a submissão do Salvador à vontade do Pai.

O Salvador estava com sede, e aquele que tinha tal sede, lembremos, possuía todo o poder no céu e na terra. 11 Houvesse ele escolhido exercitar sua onipotência, poderia prontamente ter satisfeita a sua necessidade. Aquele que outrora fizera a água fluir da rocha ferida para saciar Israel no deserto, 12 tinha os mesmos recursos infinitos à sua disposição agora. Aquele que tornara a água em vinho com uma palavra, 13 poderia ter dito a palavra de poder aqui, e satisfazer a sua necessidade. Mas ele, em nenhuma vez, operou um milagre para seu próprio benefício ou conforto. Quando tentado por Satanás para assim agir, recusou. Por que agora ele declina de atender a sua premente necessidade? Por que pendia na cruz com os lábios ressecados? Porque no princípio do livro que expressava a vontade divina, estava escrito que ele devia ter sede, e que, sedento, devia lhe ser “dado” vinagre para beber. E ele aqui veio para fazer aquela vontade e, por isso, se submete.

Na morte, como na vida, a escritura foi para o Senhor Jesus a palavra autorizada do Deus vivo. Na tentação, recusara-se a ministrar à sua necessidade à parte daquela palavra pela qual ele vivia 14 e assim, agora, ele faz conhecida sua necessidade, não para que se pudesse ministrar a ela, mas para que a escritura pudesse ser cumprida. Note que ele mesmo não a cumpriu, a Deus pode ser confiado que cuide disso; mas ele dá expressão à sua angústia de modo a fornecer ocasião para o seu cumprimento. Como alguém disse: “A terrível sede da crucificação está sobre ele, mas que não é suficiente para forçar seus lábios ressecados para falar; mas está escrito: Na minha sede me deram a beber vinagre — isso abre os seus lábios” (F. W. Grant). Aqui, então, como sempre, ele mostra a si mesmo em ativa obediência à vontade de Deus, a qual ele veio para executar. Ele simplesmente diz, “Tenho sede”; o vinagre é oferecido, e a profecia é cumprida. Que perfeita absorção na vontade do Pai!

Novamente damos uma pausa para a aplicação a nós mesmos — uma aplicação dupla. Primeiro, o Senhor Jesus se deleitava na vontade do Pai mesmo quando envolvia o sofrimento da sede. Nós fazemos esse tipo de renúncia para ele? Temos nós buscado graça para dizer: “Não se faça a minha vontade, mas a tua”? 15 Podemos nós exclamar, “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”? 16 Temos nós aprendido em qualquer estado que seja a “viver contente” (Fp 4.11)?

Mas agora, observe um contraste. Ao Filho de Deus foi negado um copo de água fria para aliviar seu sofrimento — quão diferente conosco! Deus nos tem dado uma variedade de alívios para nós, todavia, quão freqüentemente somos mal-agradecidos! Temos coisas melhores para nos deliciar do que um copo d’água quando estamos sedentos, entretanto, amiúde não somos gratos. Ó, se esse brado de Cristo fosse com mais credulamente considerado, levar-nos-ia a bendizer a Deus pelo que nós agora quase desprezamos, e geraria contentamento em nós pela mais comum das misericórdias. O Senhor da glória clamou, “Tenho sede” e nada teve à sua volta para confortá-lo, e tu, que tens mil vezes perdido todo direito às misericórdias tanto temporais quanto espirituais, menosprezas as bondades comuns da providência! Quê! murmuras de um copo de água, tu que mereces senão um copo de ira. Ó, ponha isso no coração e aprenda a se contentar com o que tens, ainda que seja mesmo as necessidades mais simples da vida. Não se queixe se você mora apenas em uma humilde cabana, pois seu Salvador não tinha onde reclinar a cabeça17! Não se queixe se você não tem nada senão pão para comer, pois a seu Salvador faltou isso por quarenta dias18! Não se queixe se você tem apenas água para beber, pois a seu Salvador ela foi negada até na hora da morte!

“Tenho sede”

5. Vemos aqui como Cristo pode se solidarizar com seu povo sofredor.

O problema do sofrimento sempre foi um que causou perplexidade. Por que o sofrimento deve ser necessário em um mundo que é governado por um Deus perfeito? Um Deus que não apenas tem poder para impedir o mal, mas que é amor. 19 Por que deve haver dor e desgraça, doença e morte? À medida que olhamos o mundo e tomamos conhecimento de suas incontáveis pessoas que sofrem, ficamos desconcertados. Esse mundo não é senão um vale de lágrimas. Uma fina aparência de alegria raramente tem êxito em esconder os tristes fatos da vida. Filosofar sobre o problema do sofrimento traz parco alívio. Após todos os nossos raciocínios, perguntamos, Deus vê? 20 Há conhecimento no Altíssimo? 21 Ele realmente se importa? Como todas as questões, essas devem ser levadas à cruz. Enquanto não acham elas uma resposta completa, entretanto elas encontram sim aquela que satisfaz o coração ansioso. Enquanto o problema do sofrimento não é plenamente resolvido aqui, todavia a cruz lança sim luz suficiente sobre ele para aliviar a tensão. A cruz mostra-nos que Deus não ignora nossas dores, pois na pessoa de seu Filho ele mesmo “tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores” (Is 53.4, ARA)! A cruz nos mostra que Deus não está desatento às nossa tristeza e angústia, pois, ao se encarnar, ele próprio sofreu! A cruz diz-nos que Deus não é indiferente à dor, pois no Salvador ele a experimentou!

Qual então o valor de tais fatos? Este: “Porque não temos um sumo sacerdote que não pode compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15). Nosso Redentor não é alguém tão afastado de nós que seja incapaz de entrar, solidariamente, em nossas tristezas, pois ele mesmo foi o “Homem de Dores”. 22 Aqui então está o conforto para o coração dorido. Não importa quão desalentado possa estar você, não importa quão escarpada a sua senda e triste o seu quinhão, você é convidado a pô-lo todo diante do Senhor Jesus e lançar todo seu cuidado sobre ele, sabendo que “tem cuidado de vós” (1Pd 5.7). O seu corpo está arruinado pela dor? Assim estava o dele! Você é mal interpretado, julgado injustamente, deturpado? Assim era ele! Aqueles que lhe são mais próximos e mais queridos deram às costas a você? Fizeram isso com ele! Você está em trevas? Ele esteve assim por três horas! “Pelo que convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote” (Hb 2.17).

“Tenho sede”

6. Vemos aqui a expressão de uma necessidade universal.

Quer o homem natural, o mundano, articule-o ou não, seu clamor é, “Tenho sede”. Porque esse desejo consumidor para adquirir bens? Por que esse desejo ardente pelas honras e aplausos do mundo? Por que essa corrida louca por prazer, indo de uma forma a outra dele com diligência persistente e incansável? Por que essa busca ávida por sabedoria — essa investigação científica, esse empenho da filosofia, esse saque aos manuscritos dos antigos, e essa experimentação incessante dos homens modernos? Por que essa loucura por aquilo que é novo? Por quê? Porque há uma voz de dor na alma. Porque há algo remanescente no homem natural que não está satisfeito. Isso é verdadeiro tanto para o milionário quanto para o camponês do interior que nunca esteve fora dos limites de sua terra: viajando de um extremo a outro da terra e fazendo-o outra vez, não consegue descobrir o segredo da paz. Sobre tudo o que as cisternas deste mundo fornecem está escrito nas letras da verdade inefável: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede” (Jo 4.13). Assim se dá com o homem ou a mulher religiosos: queremos dizer, os religiosos sem Cristo. Quantos há que vão pelo fatigante ciclo das ações religiosas, e nada encontram que satisfaça suas profundas necessidades! Eles são membros de uma denominação evangélica, freqüentam a igreja com regularidade, contribuem com seus recursos para o sustento do pastor, lêem suas Bíblias ocasionalmente, e algumas vezes oram, ou, se usam um “livro de orações”, dizem-nas toda noite. E contudo, afinal de contas, se eles são honestos, seu clamor ainda é, “Tenho sede”.

A sede é uma sede espiritual; eis o porquê das coisas naturais não poder matá-la. Desconhecido deles mesmos, sua alma “tem sede de Deus” (Sl 42.2). Deus nos fez, e só ele pode nos satisfazer. Disse o Senhor Jesus: “Aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede” (Jo 4.14). Apenas Cristo pode saciar a nossa sede. Apenas ele pode satisfazer a profunda necessidade dos nossos corações. Apenas ele pode comunicar aquela paz de que o mundo nada sabe e nem a pode conceder ou tirar. Ó leitor, uma vez mais eu me dirijo a tua consciência. Como está ela contigo? Descobriste que tudo debaixo do sol é somente vaidade e aflição de espírito? 23 Descobriste que as coisas terrenas são incapazes de satisfazer a seu coração? É o brado de sua alma, “Tenho sede”? Então, não são boas notícias ouvir que há alguém que pode satisfazer a ti? Dissemos alguém, não um credo, não uma forma de religião, mas uma pessoa — uma pessoa viva, divina. Ele é o que diz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Atente então a esse doce convite. Venha a ele agora, assim como estás. Venha em fé, crendo que ele te receberá, e então cantarás:

Vim a Jesus como estava,
Farto, cansado, e triste;
Nele encontrei um lugar de descanso,
E ele me tornou alegre. 24

Ó, venha a Cristo. Não se detenha. Você tem “sede”? Então você é aquele que está buscando: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (Mt 5.6).

Leitor não salvo, não rejeite o Salvador, pois se você morrer em seus pecados seu clamor para todo o sempre será, “Tenho sede”. Esse é o lamento do condenado eternamente. No lago de fogo o perdido sofrerá entre as chamas da ira divina por toda a eternidade. Se Cristo clamou “Tenho sede” quando padecia da ira de Deus só por três horas, qual o estado daqueles que terão de suportá-la eternamente! Quando milhões de anos tiverem se passado, mais dez milhões haverá à frente. Há uma sede perene no inferno, que não admite alívio algum. Lembre-se das pavorosas palavras do homem rico: “E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama” (Lc 16.24). Ó, meu leitor, pense. Se a sede física extrema é insuportável mesmo quando suportada por algumas poucas horas, como será aquela sede que está infinitamente além de qualquer sede do presente, e que nunca será saciada! Não diga que é cruel da parte de Deus lidar desse modo com suas criaturas que erram. Lembre ao que ele expôs seu querido Filho, quando o pecado lhe foi imputado — seguramente, aquele que despreza a Cristo é merecedor do mais quente lugar no inferno! Dizemo-lo outra vez, Receba-o agora como seu. Receba-o como seu Salvador, e submeta-se a ele como seu Senhor.

“Tenho sede”

7. Aqui vemos a declaração de um princípio permanente.

Há um sentido, um sentido real, em que Cristo ainda tem sede. Ele está sedento pelo amor e pela devoção dos seus. Ele anseia pela companhia do povo que comprou com seu sangue25. Eis aqui uma das grandes maravilhas da graça — um pecador redimido pode oferecer aquilo que satisfaz o coração de Cristo! Posso compreender como devo apreciar seu amor, mas quão maravilhoso que ele — o todo-suficiente — deva apreciar o meu! Eu aprendi quão abençoada é para minha alma a comunhão com ele, mas quem suporia que minha comunhão fosse bendita para Cristo! Todavia o é. Por isso ele ainda “tem sede”. A graça nos capacita a oferecer aquilo que o refrigera. Maravilhoso pensamento!

Você já reparou em João 4 que, embora Cristo dissesse à mulher que veio ao poço, “Dá-me de beber” — pois ele assentou-se ali “cansado” da viagem e do calor — que ele nunca tomou um gole de água? Na salvação e na fé daquela mulher samaritana ele achou aquilo que refrescou seu coração! O amor nunca fica satisfeito até que haja uma resposta e amor em troca! Assim o é com Cristo. Aqui está a chave para Apocalipse 3.20: “Eis que estou à porta, e bato: se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”.

Isso é amiúde aplicado ao não salvo, mas sua referência principal é à Igreja. Descreve-se Cristo buscando a companhia dos seus. Ele fala de “cear”, e na escritura isso sempre simboliza comunhão, da mesma forma que a Ceia do Senhor é uma oportunidade especial de comunhão entre o Salvador e o salvo. E observe nessa passagem que Cristo fala de uma dupla ceia — “entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo”. Não somente é nosso inefável privilégio cear e comungar com ele, deleitarmo-nos nele, mas ele “ceia” conosco. Ele encontra em nossa comunhão algo com que alimentar seu coração, algo que o alivia, e esse algo é a nossa devoção e o nosso amor. Sim, o Cristo de Deus ainda “tem sede”, sede pela afeição dos seus. Ó, não oferecerá você algo que a ele satisfaça? Responda então ao apelo dele: “Põe-me como selo sobre o teu coração” (Ct 8.6).





6. A PALAVRA DE VITÓRIA

“E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado”

João 19.30

NOSSOS DOIS ÚLTIMOS ESTUDOS se ocuparam com a tragédia da cruz; porém, voltamo-nos agora para o seu triunfo. Nestas palavras, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” ouvimos o brado de desolação do Salvador; em “Tenho sede”, escutamos seu clamor de lamentação; agora, chega aos nossos ouvidos seu brado de júbilo — “Está consumado”. Das palavras da vítima voltamo-nos agora às palavras do conquistador. Um provérbio diz que toda nuvem tem seu interior prateado: deu-se assim com a mais escura de todas as nuvens. A cruz de Cristo tem dois grandes lados: ela mostrou a grande profundidade de sua humilhação, mas também assinalou o objetivo da Encarnação, e mais, falou da consumação de sua missão, e forma ela a base de nossa salvação.

“Está consumado”. Os antigos gregos orgulhavam-se de serem capazes de dizer muita coisa falando pouco — “dar um mar de assunto em uma gota de linguagem” era tido como a perfeição em oratória. O que eles buscavam é encontrado aqui. “Está consumado”, no original, é apenas uma palavra, 26 todavia, nessa palavra está contido o evangelho de Deus; nessa palavra está contido o fundamento da segurança do crente; nessa palavra é descoberta a essência de todo gozo, bem como o próprio espírito de toda consolação divina.

“Está consumado”. Isso não foi o grito de desespero de um mártir desamparado; não foi uma expressão de satisfação pelo término de seus sofrimentos haver então chegado; não foi o último suspiro de uma vida que se findava. Não, antes foi a declaração da parte do divino Redentor de que tudo pelo qual ele viera do céu à terra para fazer, estava agora feito; que tudo que era necessário para revelar o completo caráter de Deus agora se tinha concluído; que tudo que era requerido pela lei antes que os pecadores pudessem ser salvos tinha agora sido realizado: que o preço da nossa escravidão foi pago para a nossa redenção.

“Está consumado”. O grande propósito divino na história do homem era agora efetuado — efetuado de jure tanto quanto ainda o será de facto. Desde o princípio, a intenção de Deus foi sempre uma e indivisível. Foi declarada aos homens de várias maneiras: em símbolo e tipo, por misteriosos sinais e por claras sugestões, mediante predição messiânica e mediante declaração didática. Esse seu propósito pode ser assim resumido: mostrar sua graça e engrandecer seu Filho criando filhos a sua própria imagem e glória. E na cruz o fundamento que foi posto era para que isso se tornasse possível e real.

“Está consumado”. O que está consumado? A resposta a tal questão é uma resposta mui abundante de significado, ainda que vários excelentes expositores procurem limitar o escopo de tais palavras e confiná-las estritamente a uma única aplicação. É-nos dito que foram consumadas as profecias que diziam respeito aos sofrimentos do Salvador, e que ele se referia apenas a isso. Admite-se de pronto que a referência imediata era às predições messiânicas, todavia, pensamos que há razões boas e suficientes para não confinar as palavras de nosso Senhor a elas. Sim, para nós parece certo que Cristo se referia especialmente à sua obra sacrificial, pois toda escritura acerca de seu sofrimento e vergonha não estava cumprida. Ainda restava entregar seu espírito nas mãos do Pai (Sl 31.5); ainda restava o “traspassar” com a lança (Zc 12.10: e repare que a palavra utilizada para o traspassar de suas mãos e pés — o ato de crucificação — no Sl 22.16 é diferente27); ainda restava serem seus ossos preservados sem quebra (Sl 34.20), e o enterro no sepulcro do homem rico (Is 53.9).

“Está consumado”. O que estava consumado? Respondemos, sua obra sacrificial. É verdade que havia ainda o ato da própria morte, que era necessária para fazer a expiação. Porém, como se dá freqüentemente no Evangelho de João — onde se encontra nosso texto — (cf. Jo 12.23,31; 13.31; 16.5; 17.4), o Senhor fala aqui antecipadamente da conclusão de sua obra. Além disso, deve ser lembrado que as três horas de trevas já haviam passado, o terrível cálice já havia sido sorvido até à última gota, seu precioso sangue já tinha sido vertido, a ira divina derramada já havia sido suportada; e esses são os principais elementos para se fazer a propiciação. A obra sacrificial do Salvador, então, estava completada, com exceção apenas do ato de morte que se seguiu imediatamente. Mas, como veremos, a consumação daquela obra pôs fim a várias coisas, e a elas voltaremos a nossa atenção.

“Está consumado”

1. Aqui vemos efetuado o cumprimento de todas as profecias que foram escritas sobre ele antes que viesse a morrer.

Esse é o pensamento imediato do contexto: “Quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado” (Jo 19.30). Séculos antes, os profetas de Deus tinham descrito passo a passo a humilhação e o sofrimento por que o Salvador vindouro deveria passar. Uma por uma das profecias haviam sido cumpridas, maravilhosamente cumpridas, cumpridas ao pé da letra. Havia profecia que declarava que ele deveria vir da “semente da mulher” (Gn 3.15): então, ele veio “nascido de mulher” (Gl 4.4). Havia profecia que anunciava que sua mãe seria uma “virgem” (Is 7.14): então foi ela literalmente cumprida (Mt 1.18). Havia profecia que revelava que ele deveria ser da semente de Abraão (Gn 22.18): então, observe seu cumprimento (Mt 1.1). Havia profecia que fazia saber que ele deveria ser da linhagem de Davi (2Sm 7.12,13): então tal se deu em realidade (Rm 1.3). Havia profecia que dizia que ele receberia seu nome antes de nascer (Is 49.1): então assim se sucedeu (Lc 1.30,31). Havia profecia que previa que ele deveria nascer em Belém de Judá (Mq 5.2): observe então como essa aldeia mesma foi de fato sua terra natal. Havia profecia que alertava de antemão que seu nascimento acarretaria desgosto para outros (Jr 31.15): então, contemple seu trágico cumprimento (Mt 2.16-18). Havia profecia que mostrava com antecedência que o Messias deveria aparecer antes que o cetro da ascendência de Judá sobre as demais tribos tivesse dela partido (Gn 49.10); então assim foi, pois ainda que as dez tribos estivessem cativas, Judá ainda estava na terra na época de seu advento. Havia profecia que aludia à fuga para o Egito e ao subseqüente retorno para a Palestina (Os 11.1 e cf. Is 49.3,6): então, assim aconteceu (Mt 2.14,15).

Havia profecia que fazia menção de um que viria antes de Cristo para aprontar seu caminho (Ml 3.1): então, veja seu cumprimento na pessoa de João Batista. Havia profecia que dava a conhecer que no aparecimento do Messias “os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará” (Is 35.5,6): então, leia de uma ponta a outra os quatro evangelhos e veja de quão bendita maneira isso se provou verdadeiro. Havia profecia que falava dele como “pobre e necessitado” (Sl 40.17 — vide início do salmo): então, contemple-o não tendo onde reclinar a cabeça. Havia profecia que sugeria que ele falaria em “parábolas” (Sl 78.2): então tal foi amiúde seu método de ensino. Havia profecia que o representava acalmando a tempestade (Sl 107.29): então, isso foi exatamente o que ele fez. 28 Havia profecia que proclamava sua “entrada triunfal” em Jerusalém (Zc 9.9): então assim se sucedeu.

Havia profecia que anunciava que sua pessoa deveria ser desprezada (Is 53.3); que ele deveria ser rejeitado pelos judeus (Is 8.14); que ele deveria ser aborrecido “sem causa” (Sl 69.4): então, é triste dizê-lo, tal foi precisamente o caso. Havia profecia que pintava o quadro inteiro de sua degradação e crucificação — então, foi ele vividamente reproduzido. Houvera a traição por um amigo íntimo, a deserção por seus queridos discípulos, o ser levado ao matadouro, o ser levado a julgamento, o aparecimento de falsas testemunhas contra si, a recusa de sua parte de se defender, a demonstração de sua inocência, a condenação injusta, a pena de morte sentenciada sobre si, o traspassamento literal de suas mãos e pés, o ser contado entre os transgressores, a zombaria da multidão, o lançar sortes sobre suas vestes — tudo predito séculos antes, e tudo cumprido ao pé da letra. A última profecia de todas que ainda restava antes de encomendar seu espírito às mãos do Pai tinha agora sido cumprida. Ele clamou, “Tenho sede”, e após o oferecimento de vinagre e fel tudo estava agora “concluído”; e, quando o Senhor Jesus reviu o inteiro escopo da palavra profética e viu sua completa realização, ele bradou, “Está consumado”!

Somente nos resta assinalar que, enquanto houve um grupo todo de profecias que tinha de se dar no primeiro advento do Salvador, assim também há um outro que tem de acontecer em seu segundo advento — o último, tão definido, pessoal e completo em seu escopo quanto o primeiro. Assim como vemos o real cumprimento daquelas que tinham de ocorrer em sua primeira vinda à terra, também podemos aguardar com absoluta confiança e segurança o cumprimento daquelas que terão lugar em sua segunda vinda. E, como vimos que o primeiro grupo de profecias foi cumprido literal, real e pessoalmente29, também devemos esperar que o último o seja. Admitir o cumprimento literal do primeiro, e então procurar espiritualizar e simbolizar o último, é não apenas grosseiramente inconsistente e ilógico, mas altamente pernicioso para nós e profundamente desonroso a Deus e à sua palavra.

“Está consumado”

2. Vemos aqui o término de seus sofrimentos.

E qual língua ou pena pode descrever os sofrimentos do Salvador? Ó, que angústia inexprimível, física, mental e espiritual que ele suportou! Apropriadamente foi ele designado “o Homem de Dores”. Sofrimentos nas mãos dos homens, nas mãos de Satanás e nas mãos de Deus. Dor infligida tanto pelos inimigos quanto pelos amigos. Desde o início ele caminhou entre as sombras que a cruz lançava de través sobre seus passos. Ouça seu lamento: “Estou aflito e prestes a morrer desde a minha mocidade” (Sl 88.15). Que luz isso lança sobre seus primeiros anos! Quem pode dizer quanto está contido nessas palavras? Para nós, um véu impenetrável está lançado sobre o futuro; nenhum de nós sabe o que um dia pode causar. Mas o Salvador conhecia o fim desde o começo!

Alguém apenas precisa ler os evangelhos para saber como a terrível cruz esteve sempre perante ele. Nas bodas de Cana, onde tudo era alegria e divertimento, ele faz solene referência à sua “hora” que ainda não viera. 30 Quando Nicodemos o entrevistou à noite, o Salvador aludiu ao levantamento do Filho do homem. 31 Quando Tiago e João vieram lhe pedir dois lugares de honra em seu reino vindouro, ele fez menção ao “cálice” que ele tinha de tomar e ao “batismo” com que deveria ele ser batizado. 32 Quando Pedro confessou que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, ele voltou-se para os seus discípulos e começou a lhes mostrar “que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mt 16.21). Quando Moisés e Elias ficaram diante dele no monte da transfiguração, foi para falar “da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém”.

Se é verdade que somos bem incapazes de avaliar os sofrimentos de Cristo devido à antecipação da cruz, menos ainda podemos sondar a pavorosa realidade da própria. Os sofrimentos físicos foram excruciantes, mas mesmo isso foi como nada se comparado com sua angústia de alma. Para uma consideração de tais sofrimentos já dedicamos vários parágrafos nos capítulos anteriores, todavia não nos desculpamos em nada em retornar a eles novamente. Não é demasiado de nossa parte poder contemplar com freqüência o que o Salvador suportou a fim de assegurar a salvação para nós. Quanto mais estivermos familiarizados com seus sofrimentos, e quanto mais amiúde meditarmos neles, mais caloroso será nosso amor e mais profunda a nossa gratidão.

Finalmente as últimas horas chegaram. Tinha havido a terrível experiência no Getsêmane seguida pelos comparecimentos perante Caifás, perante Pilatos, perante Herodes e novamente perante Pilatos. Tinha havido o açoitamento e o escárnio por parte dos soldados brutais; a jornada ao Calvário; a fixação de suas mãos e pés por pregos ao cruel madeiro. Tinha havido a injúria dos sacerdotes, do povo e dos dois ladrões com ele crucificados. Tinha havido a total indiferença de uma turba vulgar, dentre a qual ninguém houve que “tivesse compaixão” e que dissesse uma palavra de consolo (Sl 69.20). Tinha havido a apavorante escuridão que lhe ocultou a face do Pai, que arrancou dele o amargo clamor, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Tinha havido os lábios ressecados que tiraram dele a exclamação, “Tenho sede”. Tinha havido o horrendo conflito com o poder das trevas enquanto a serpente “feria” seu calcanhar. Bem podia o padecente perguntar, “Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho? atendei, e vede, se há dor como a minha dor, que veio sobre mim, com que me entristeceu o Senhor, no dia do furor da sua ira” (Lm 1.12).

Mas agora o sofrimento está findo. Aquilo a que sua santa alma recuava está acabado. O Senhor o tinha ferido; o homem e o diabo tinham feito o pior que podiam fazer. O cálice foi completamente bebido. A terrível tempestade da ira de Deus tinha acabado de passar. As trevas estão terminadas. A espada da justiça divina está embainhada. O salário do pecado tinha sido pago. As profecias acerca de seu sofrimento estavam todas cumpridas. A cruz tinha sido “suportada”. A santidade divina tinha sido plenamente satisfeita. Com um brado de triunfo — um forte brado, um brado que reverberou de uma extremidade a outra do universo — o Salvador exclama, “Está consumado”. A ignomínia e a vergonha, o sofrimento e a agonia são passado. Nunca mais ele experimentará dor. Nunca mais ele suportará a contradição de pecadores contra si mesmo. Nunca mais estará ele nas mãos de Satanás. Nunca mais a luz do semblante de Deus ficará ocultada dele. Bendito seja Deus, tudo está terminado!

A cabeça que antes estava coroada de espinhos, está agora coroada de glória;
Um diadema real adorna a testa do poderoso Conquistador.
O mais alto lugar do Céu é Seu, é Seu por direito,
O Rei dos reis e Senhor dos senhores, e a eterna Luz do Céu.
O gozo de todos os que habitam encima, o Gozo de todos embaixo,
Àqueles a que ele manifesta seu amor, e concede que conheçam seu nome. 33

“Está consumado”

3. Vemos aqui que o objetivo da Encarnação é alcançado.

A Escritura indica que há uma obra especial peculiar a cada uma das pessoas divinas, ainda que, como as pessoas mesmas, não é sempre fácil distinguir entre suas respectivas obras. Deus Pai está especialmente envolvido no governo do mundo. Ele governa sobre todas as obras de suas mãos. Deus Filho está especialmente envolvido na obra redentora: ele foi quem veio aqui para morrer pelos pecadores. Deus Espírito está especialmente envolvido com as escrituras: ele foi quem moveu os santos homens de outrora para falarem as mensagens de Deus, 34 assim como é quem agora dá iluminação espiritual e entendimento, 35 e guia na verdade. 36 Mas é com a obra de Deus Filho que estamos aqui particularmente interessados.
Antes que o Senhor Jesus viesse a essa terra uma obra definida foi confiada a ele. No princípio do livro isso foi escrito por ele, e ele veio a fazer a vontade registrada de Deus. 37 Mesmo quando garoto de doze anos, os “negócios” do Pai estavam diante de seu coração e ocupavam a sua atenção. Outra vez, em João 5.36, encontramo-lo dizendo: “Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me deu para realizar, as mesmas obras que eu faço”. E, na última noite antes de sua morte, naquela maravilhosa oração sacerdotal, descobrimo-lo falando: “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer” (Jo 17.4).

Em seu livro sobre os sete ditos de Cristo na cruz, o Dr. Anderson-Berry lança mão de uma ilustração da história a qual, por sua contundente antítese, revela o sentido e a glória da obra completa de Cristo. Isabel, Rainha da Inglaterra, o ídolo da sociedade e a líder da alta sociedade européia, quando em seu leito de morte, voltou-se para a sua dama de companhia e disse: “Ó, meu Deus! Está acabado. Chego ao fim disso — o fim, o fim. Ter somente uma vida e acabado com ela! Ter vivido, e amado, e triunfado; e agora saber que está terminado. Pode-se desafiar tudo o mais, menos isso”. E, enquanto a ouvinte assistia a isso sentada, poucos momentos depois, a face cujo sorriso mais leve trouxera seus cortesãos aos seus pés, tornava-se numa máscara de argila sem vida, e retribuía a ansiosa contemplação de sua serva com nada mais do que um fixo olhar vazio. Tal foi o fim de alguém cuja meteórica carreira fora invejada por metade do mundo. Não podia ser dito que ela “consumara” alguma coisa, pois consigo tudo foi “vaidade e aflição de espírito”. Quão diferente foi o fim do Salvador — “Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer”.

A missão na qual Deus enviou seu Filho ao mundo estava agora acabada. Na realidade, não foi terminada até que desse seu último suspiro, mas a morte viria em instantes e, antecipando-se a isso, ele brada, “Está consumado”. A difícil obra está feita. A tarefa divinamente dada a ele está executada. Uma obra mais digna de honra e mais importante do que qualquer outra jamais confiada ao homem ou aos anjos estava completada. Aquilo por que deixara a glória celeste, aquilo pelo qual ele tomara sobre si a forma de servo, aquilo pelo qual ele havia permanecido na terra por trinta e três anos para fazer, estava agora consumado. Nada mais tinha para ser adicionado. A meta da Encarnação é atingida. Com que jubiloso triunfo ele aqui deve ter visto a árdua e custosa obra que lhe foi entregue agora aperfeiçoada!

“Está consumado”. A missão na qual Deus enviara seu Filho ao mundo estava acabada. Aquilo que fora tencionado na eternidade viera a suceder. O plano de Deus fora plenamente levado a cabo. É verdade que o Salvador fora morto e crucificado “por mãos de iníquos”, todavia, foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23, ARA). É verdade que os reis da terra se levantaram, e os príncipes se ajuntaram contra o Senhor, e contra o seu Cristo38; entretanto, não foi senão para fazer o que a mão e o conselho de Deus “tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (At 4.28). Por que ele é o Altíssimo, não se pode frustrar a secreta vontade de Deus. Por que ele é supremo, o conselho de Deus deve ficar de pé. Por que ele é o Todo-Poderoso, o propósito de Deus não pode ser malogrado. Repetidas vezes as escrituras insistem na irresistibilidade do desejo do Senhor Deus. Por que sua verdade é agora tão geralmente posta em discussão, 39 acrescentamos sete passagens que a afirmam:

Mas, se ele resolveu alguma cousa, quem o pode dissuadir? O que ele deseja, isso fará (Jó 23.13, ARA).

Bem sei eu que tudo podes, e nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido (Jó 42.2).

Mas o nosso Deus está nos céus; faz tudo o que lhe apraz (Sl 115.3).

Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho contra o Senhor (Pv 21.30).

Porque o Senhor dos Exércitos o determinou; quem pois o invalidará? E a sua mão estendida está; quem pois a fará voltar atrás? (Is 14.27).

Lembrai-vos das coisas passadas desde a antigüidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim; que anuncio o fim desde o princípio, e, desde a antigüidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade (Is 46. 9,10).

E todos os moradores da terra são reputados em nada; e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes? (Dn 4.35).

E, no brado triunfante do Salvador — “Está consumado” — temos uma profecia e um penhor da execução definitiva do plano de Deus de modo completo e irresistível. No fim dos tempos, quando tudo estiver terminado, e o propósito divino for plenamente consumado, quando tudo que ele predeterminou que devesse ser feito estiver cumprido, então será dito novamente: “Está consumado”.

“Está consumado”

4. Vemos aqui a realização da expiação.

Falamos acima de Cristo alcançando a meta da Encarnação, e da consumação de sua missão na terra; o que foram tal meta e tal missão, a escritura claramente revela. O Filho do Homem veio aqui “para buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). Cristo Jesus entrou no mundo “para salvar os pecadores” (1Tm 1.15). Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, “para remir os que estavam debaixo da lei” (Gl 4.4). Ele foi manifestado “para tirar os nossos pecados” (1Jo 3.5). E tudo isso envolvia a cruz. O “perdido” que ele veio buscar só podia ser encontrado lá — no lugar de morte e sob a condenação divina. Os pecadores podiam ser “salvos” somente por alguém tomando seu lugar e levando suas iniqüidades. Aqueles que estavam sob a lei apenas podiam ser “remidos” por um outro que cumprisse suas exigências e sofresse sua maldição. Nossos pecados somente podiam ser “tirados” sendo apagados pelo precioso sangue de Cristo. As demandas da justiça têm que ser satisfeitas: as exigências da santidade divina têm que ser atendidas: o terrível débito em que incorremos tem que ser pago. E na cruz isso foi feito; feito por ninguém menos que o Filho de Deus; feito com perfeição; feito de uma vez por todas.

“Está consumado”. Aquilo para o qual tantos tipos apontavam, aquilo para o qual tanta coisa do tabernáculo e de seu ritual prefigurava, aquilo do qual tantos dos profetas de Deus tinham falado, estava agora realizado. Uma cobertura para o pecado e sua vergonha — tipificada pelas túnicas de peles com as quais o Senhor Deus vestiu nossos primeiros pais40 — foi agora fornecida. O mais excelente sacrifício — tipificado pelo cordeiro de Abel41 — fora agora oferecido. Um abrigo para a tempestade do julgamento divino — tipificado pela arca de Noé42 — era agora providenciado. O Filho unigênito e mui amado — tipificado pelo oferecimento de Isaque por Abraão43 — já havia sido posto sobre o altar. Uma proteção contra o anjo vingador — tipificada pelo sangue derramado do cordeiro pascal44 — era agora suprida. Uma cura para a mordida da serpente — tipificada pela serpente de bronze sobre a haste45 — era agora aprontada para os pecadores. A provisão de uma fonte que dá vida — tipificada pelo golpear de Moisés na rocha46 — era agora efetuada.

“Está consumado”. A palavra grega aqui, teleo, é vertida de várias formas no Novo Testamento. Uma olhada em algumas das diferentes traduções em outras passagens nos habilitará a discernir a plenitude e a finalidade do termo usado pelo Salvador. Em Mateus 11.1, teleo é traduzida como segue: “E aconteceu que, acabando Jesus de dar instruções aos seus doze discípulos, partiu dali”. Em Mateus 17.24, é assim traduzida: “Aproximaram-se de Pedro os que cobravam as didracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as didracmas?” Em Lucas 2.39 é traduzida: “”E, quando acabaram de cumprir tudo segundo a lei do Senhor, voltaram à Galiléia”. Em Lucas 18.31, temos: “E se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito”. Ajuntando tudo, aprendemos o escopo da sexta elocução do Salvador na cruz, “Está consumado”. Ele clamou: está “posto um fim a”; está “pago”; está “realizado”; está “acabado”. A que se pôs um fim? Aos nossos pecados e sua culpa. O que foi pago? O preço de nossa redenção. O que foi realizado? Os mais extremos requerimentos da lei. O que foi acabado? A obra que o Pai lhe dera a fazer. O que foi findado? O fazer expiações.

Deus fornece ao menos quatro provas de que Cristo terminou sim sua obra a qual lhe foi dada para fazer. Primeiro, no rasgar do véu, 47 que mostrava que o caminho para Deus estava agora aberto. Segundo, no ressurgir de Cristo dentre os mortos, que provou que Deus aceitara seu sacrifício. Terceiro, na exaltação de Cristo a sua própria destra, 48 o que demonstrou o valor da sua obra e o deleite do Pai em sua pessoa. Quarto, no envio à terra do Espírito Santo para aplicar as virtudes e benefícios da morte expiatória de Cristo. 49
“Está consumado”. O que estava consumado? A obra da expiação. Qual o seu valor para nós? Este: ao pecador, é uma mensagem de boas novas. Tudo que um santo Deus requer foi feito. Nada é deixado para o pecador acrescentar. Obra nenhuma de nós é exigida como preço de nossa salvação. Tudo que é necessário ao pecador é descansar agora pela fé sobre o que Cristo fez: “O dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor” (Rm 6.23). Para o crente, o conhecimento de que a obra expiatória de Cristo está acabada traz um doce alívio contra todos os defeitos e imperfeições de seus serviços. Há muito de pecado e vaidade no melhor mesmo de nossos esforços, mas o grande consolo é que estamos “perfeitos” em Cristo (Cl 2.10)! Cristo e sua obra acabada é o fundamento de todas as nossas esperanças.

Sobre uma Vida que não vivi,
Sobre uma Morte que não morri,
Sobre a morte de um outro, sobre a vida de um outro
Eu lanço minh’alma eternamente
Com ousadia ficarei de pé naquele grande dia,
Pois quem pode lançar sobre mim alguma acusação?
Completamente absolvido por Cristo estou,
Da tremenda maldição do pecado e da culpa. 50

“Está consumado”

5. Vemos aqui o fim de nossos pecados.

Os pecados do crente — todos os seus — foram transferidos ao Salvador. Como diz a escritura: “O Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos” (Is 53.6). Se Deus pois lançou minhas iniqüidades sobre Cristo, não mais estão elas sobre mim. Há pecado em mim, pois a velha natureza adâmica permanece no crente até a morte ou até o retorno de Cristo, caso ele venha antes que eu morra, porém, não há mais pecado algum sobre mim. Tal distinção entre pecado EM e pecado SOBRE é uma distinção vital, e deve haver pouca dificuldade em sua apreensão. Se eu dissesse que o juiz deu a sentença sobre um criminoso, e que esse está agora sob sentença de morte, todos entenderiam o que eu quis dizer. Da mesma forma, todos fora de Cristo tem a sentença da condenação divina que repousa sobre si. Porém, quando um pecador crê no Senhor, recebe-o como seu Senhor e Mestre, ele não mais está “sob condenação” — o pecado não mais está sobre si, ou seja, a culpa, a condenação, a pena do pecado, não mais está sobre ele. E por quê? Porque Cristo levou nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro (1Pd 2.24). A culpa, a condenação e a pena de nossos pecados foram transferidas ao nosso substituto. Em conseqüência, porque meus pecados foram transferidos a Cristo, eles não mais estão sobre mim.

Essa preciosa verdade foi contundentemente ilustrada nos tempos do Antigo Testamento em conexão com o Dia Anual da Expiação em Israel. Naquele dia, Arão, o sumo-sacerdote (um tipo de Cristo), dava satisfação a Deus pelos pecados que Israel cometera durante o ano anterior. A maneira como isso era feito está descrita em Levítico 16. Dois bodes eram tomados e apresentados diante de Deus à porta do tabernáculo: isso era antes que qualquer coisa fosse feita com eles: isso representava Cristo apresentando-se a Deus, oferecendo para entrar neste mundo, e ser o Salvador dos pecadores. Um dos bodes era então escolhido e morto, e seu sangue era levado para dentro do tabernáculo, no interior do véu, no Santo dos Santos e, ali, era espargido perante e sobre o propiciatório — prefigurando a Cristo oferecendo-se como um sacrifício a Deus, para satisfazer às exigências de sua justiça e aos requerimentos de sua santidade.

Lemos então que Arão saía do tabernáculo e punha ambas as mãos sobre a cabeça do segundo bode (vivo) — significando um ato de identificação pelo qual ele, o representante de toda a nação, identificava o povo com o animal, reconhecendo que seu destino era o que seus pecados mereciam, e que, hoje, corresponde às mãos da fé, segurando Cristo e identificando a nós mesmos consigo em sua morte. Tendo posto suas mãos na cabeça do bode vivo, Arão agora confessava sobre ele “todas as iniqüidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, segundo todos os seus pecados, e os porá sobre a cabeça do bode” (Lv 16.21). Desse modo, os pecados de Israel eram transferidos ao seu substituto. Finalmente se nos diz: “Assim aquele bode levará sobre si todas as iniqüidades deles à terra solitária; e enviará o bode ao deserto” (Lv 16.22). O bode que carregava os pecados de Israel era introduzido num ermo inabitado, e o povo de Deus não mais via, nem ele nem seus pecados! Tipificando, isso era Cristo introduzindo nossos pecados em uma terra desolada onde Deus não estava, e ali dando um fim a eles. A cruz de Cristo, pois, é o túmulo de nossos pecados!

“Está consumado”

6. Aqui vemos o cumprimento das exigências da lei.

“A lei é santa, e o mandamento santo, justo e bom” (Rm 7.12). Como poderia ela ser menos que isso, já que o próprio Jeová a tinha ideado e dado! A culpa não estava na lei, mas no homem que, sendo depravado e pecador, não a podia guardar. Todavia, aquela lei tem que ser guardada, e guardada por um homem, de modo que a lei pudesse ser honrada e exaltada, e justificado aquele que a deu. Por conseguinte, lemos: “Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei se cumprisse em (não “por”) nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o espírito” (Rm 8.3,4). A “enfermidade” aqui é aquela do homem caído. O envio do Filho de Deus na semelhança da carne do pecado (grego, corretamente traduzido pela versão Almeida Revista e Corrigida) refere-se à Encarnação: como lemos em uma outra escritura, “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei” (Gl 4.4,5 ARA). Sim, o Salvador nasceu “sob a lei”, nasceu sob ela para que pudesse guardá-la perfeitamente em pensamento, palavra e obras. “Não cuideis que vim destruir a lei, ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir” (Mt 5.17); essa foi sua pretensão.

Mas não apenas o Salvador guardou os preceitos da lei, ele também sofreu sua pena e suportou sua maldição. Nós a tínhamos quebrado e, tomando nosso lugar, ele deve receber sua justa sentença. Tendo recebido sua pena e sofrido sua maldição, as exigências da lei são completamente atendidas e a justiça é satisfeita. Por conseguinte, está escrito a respeito dos crentes: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós” (Gl 3.13). E outra vez: “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). E outra vez ainda: “Pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Rm 6.14).

“Livres da lei, Ó feliz condição!
Jesus abençoa e há remissão.
Amaldiçoados pela lei e mortos pela queda,
A graça nos redimiu de uma vez por todas.51

“Está consumado”

7. Aqui vemos a destruição do poder de Satanás.

Veja-o pela fé. A cruz foi o presságio de morte do poder do diabo. Às aparências humanas parecia o momento de seu maior triunfo, todavia, na realidade foi a hora de sua derrota definitiva. Em virtude da cruz (vide contexto) o Salvador declarou, “Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12.31). É verdade que Satanás não foi ainda acorrentado e lançado no abismo, 52 entretanto, a sentença foi dada (ainda que não executada); seu fim é certo; e seu poder já está quebrado no que diz respeito aos crentes.

Para o cristão, o diabo é um inimigo vencido. Ele foi derrotado por Cristo na cruz — “para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hb 2.14). Os crentes já foram tirados “da potestade das trevas” e transportados para o reino do Filho do amor de Deus (Cl 1.13). Satanás, então, deve ser tratado como um inimigo derrotado. Ele não mais tem qualquer reivindicação legítima sobre nós. Outrora éramos seus “cativos” por lei, mas Cristo nos livrou. Outrora andávamos “segundo o príncipe das potestades do ar”; 53 mas agora temos de seguir o exemplo que Cristo nos deixou. Outrora Satanás “operava em nós”; mas agora Deus é quem opera em nós tanto o querer quanto o efetuar, segundo sua boa vontade. 54 Tudo o que temos de fazer é “resistir ao diabo”, e a promessa é que “ele fugirá de vós” (Tg 4.7).

“Está consumado”. Aqui estava a resposta triunfante à cólera do homem e à inimizade de Satanás. Ela conta a perfeita obra que vai de encontro ao pecado no lugar do julgamento. Tudo estava completado exatamente como Deus queria tê-lo, como os profetas haviam predito, como o cerimonial do Antigo Testamento prefigurava, como a santidade divina requeria, e como os pecadores necessitavam. Quão contundentemente apropriado é que esse sexto brado do Salvador na cruz seja encontrado no evangelho de João — o evangelho que mostra a glória da deidade de Cristo! Ele aqui não encomenda sua obra à aprovação divina, mas sela-a com o seu próprio imprimatur, atestando-a como completa, e dando-lhe a todo-suficiente sanção de sua própria aprovação. Nenhum outro além do Filho de Deus diz “ESTÁ consumado” — quem pois ousa duvidar ou questionar?
“Está consumado”. Leitor, você crê nisso? ou está tentando adicionar algo de si mesmo à obra completa de Cristo para assegurar o favor de Deus? Tudo o que você tem que fazer é aceitar o perdão que ele adquiriu. Deus está satisfeito com a obra de Cristo, por que você não está? Pecador, no momento em que você crer no testemunho de Deus sobre seu Filho amado, nesse momento todo pecado que você cometeu é apagado, e você fica em posição aceitável em Cristo! Ó, não gostaria você de possuir a certeza de que não há nada entre sua alma e Deus? Não gostaria você de saber que todo pecado foi expiado e posto de lado? Então, creia no que a palavra de Deus acerca da morte de Cristo. Não descanse em seus sentimentos e experiências, mas na palavra escrita. Há apenas um caminho para se encontrar paz, e isso é mediante a fé no sangue derramado do Cordeiro de Deus.

“Está consumado”. Você realmente crê nisso? Ou está se esforçando para acrescentar algo seu mesmo a ele e assim merecer o favor divino? Há alguns anos atrás, um fazendeiro cristão estava profundamente preocupado com um carpinteiro não salvo. Ele procurou pôr diante de seu vizinho o evangelho da graça de Deus, e explicar como que a obra completa de Cristo foi suficiente para sua alma nela descansar. Porém, o carpinteiro persistia na crença de que ele mesmo tem que fazer algo. Um dia, o fazendeiro pediu a esse para lhe fazer um portão, e quando o portão estava pronto ele o transportou para a sua carroça. Ele ordenou ao carpinteiro que o visitasse no dia seguinte de manhã e visse o portão quando levantado no campo. Na hora marcada o carpinteiro chegou e ficou surpreso ao descobrir o fazendeiro lá perto com um afiado machado em sua mão. “O que você vai fazer?”, ele perguntou. “Vou fazer alguns cortes e dar uns golpes em sua obra”, foi a resposta. “Mas não há necessidade alguma disso”, respondeu o carpinteiro, “o portão está todo certo assim. Fiz tudo que era necessário”. O fazendeiro não prestou atenção a isso mas, erguendo seu machado, deu talhos e cortes no portão até ficar completamente inutilizado. “Veja o que você fez!”, gritou o carpinteiro. “Você arruinou meu trabalho!” “Sim”, disse o fazendeiro, “e isso é exatamente o que você está tentando fazer. Você está procurando anular a obra completa de Cristo com seus miseráveis acréscimos a ela!” Deus utilizou essa lição com o vigoroso objeto para mostrar ao carpinteiro seu engano, e esse foi levado a se lançar em fé sobre o que Cristo tem feito pelos pecadores. Leitor, você quer fazer o mesmo?

 

 
 
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Pr. Ronaldo Didini
Fundador do Ministério Caminhar

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